domingo, 12 de janeiro de 2025

Educação antirracista

Muito se fala em educação antirracista. Muito mesmo. Virou até capital de currículo, marketing digital pra empresários e polítiqueiros da educação. Virou também de militarrogância acadêmica de mestrandos e doutorandos da USP que passam longe dos nonos anos das quebradas. 

Mas eu vou te contar algumas coisas sobre educação antirracista. 

1. Essa palavra não faz sentido pra maioria das pessoas brancas que não convivem com pessoas negras. Elas fingem que entendem e que praticam, só que não. 

2. Ainda não há palavras e termos definidamente adequadaos para se tratar do assunto. É impossível para uma pessoa branca (como eu) falar naturalmente sobre racismo sem correr o risco de expressar semânticas racistas, expressões inadequadas que incomodam. É difícil falar sobre racismo coletivamente sem constranger alguém. Por isso é preciso preparo, estudo, vivência, e saber perceber e reparar erros e más expressões que ocorrem. 

3. As coordenações e direções, especialmente de escolas particulares, não estão preparadas para o efeito rebote da educação antirracista. Efeito rebote são os atos e boatos de reação às ações e atividades antirracista. Evangélicos se incomodam muito com tudo o que é afro, pro exemplo. Professores, diretores, coordenadores evangélicos, ou pseudoliberais cheios de "mas" em cada frase. Como ter uma escola antirracista quando se tem profissionais da educação que classificam tudo o que afro como algo ruim e errado? 

4. Não dá pra construir narrativas e conceitos antirracistas no Brasil sem conhecer ou considerar "religião, ou religiosidade. Tudo o que é afro tem relação ancestral. Tudo que tem caráter ancestral tem caráter espiritual. A "macumba" quase sempre vai aparecer numa aula ou pauta antirracista. Tem coragem de falar de macumba na escola? 

Eu, fiz meu primeiro vlog da vida, no YouTube, em 2013, sobre consciência negra. E eu, bem jovem, sem nenhuma especificidade, afirmo no vídeo que coordenações e gestões também precisavam se preparar para as reclamações e reações de pais, pois essas escolas e sistemas de ensino estavam cumprindo a lei 10639. 

Pois bem, alguém fez a fofoca pra direção do colégio privado que eu trabalhava. A diretora e coordenadora se ofenderam, me acusaram de expô-las e me demitiram. Assédio moral descarado. Mas eu era jovem de 25 anos e nem entendi direito o que aconteceu, e ainda saí pedindo desculpas. Mas... Xangô viu. 

Exercer educação antirracista é bastante complexo. E complexo de formas diferentes pra profs brancos e negros. Diferentes no colégio de freira rico e na escola pública da quebrada. 

Educação antirracista é triste, é revoltante, mexe e remexe feridas, mágoas e traumas. Exercer educação antirracista força crianças inocentes que a maldade existe, e se dá principalmente em forma de racismo, através do racismo e por causa do racismo. 

Todos os problemas que existem ficam piores por causa do racismo. 

Se a gente parar pra reparar mesmo, o horror do racismo tá pra todo lado. Nas linhas do metrô onde a cor das pessoas ficam mais ou menos escuras de acordo com a cor da linha e do bairro que passa. Todo e qualquer número de morte, de guerra, de doença evitável, de fome, de violência de todo tipo, entre negros é pior. 

O gosto que fica na boca, após uma aula de História antirracista, é um gosto bem amargo.

Só que não dá pra não falar.

O fascismo é assim

O fascismo é assim. Ele aparece como uma coisa sem nexo, assustadora e fanática. Ele tem uma energia agressiva de destruir o outro. O fascismo une as pessoas pelo ódio. Se vc sente raiva e ressentimentos pessoais por qualquer motivo, o fascismo canaliza isso pra um rumo. O outro. A qualquer um que discorda. 

O fascismo vai iludindo e acolhendo as pessoas frustradas e faz com que essas pessoas se sintam fortes e protegidas pelo grupo. Um bando de gente que usa o grito e a força como forma de auto afirmação sempre em comparação e competição com o outro.

 O fascismo é um perigo pq ele mexe com a emoção das pessoas. Mexe com o lobo que mora dentro do homem. O fascismo existe dentro de nós. Em alguns ele é reprimido pela ética e pela razão, em outros ele é potencializado pela vaidade, pelo ego e pelo medo. O fascismo planta nas pessoas a certeza de que se é especial e escolhido e de que o outro deve ser superado, convertido ou destruído.  

O fascismo é um perigo. Está crescendo. Brotando de suas raízes de um passado recente que mistura escravidão, ignorância e elitismo toscamente lusitano.

#fascismo 
#educação 
#antirracista #antifascita #paulofreiresalva

sábado, 11 de janeiro de 2025

Supremacismo cristão neopentecostal

Eu penso, comigo mesmo, que tenho certa obrigação moral de compartilhar algumas questões que podem passar despercebidas, mas que ajudam a fundamentar preconceitos, intolerâncias e as diversas formas de violência que delas derivam.

Refiro-me, mais uma vez, àquilo que chamo de ética cristã da superioridade moral: essa percepção, muitas vezes naturalizada, de que pessoas cristãs são eleitas, escolhidas, especiais — moralmente superiores ou mais próximas de uma suposta verdade.

Quero propor que observemos uma camada mais profunda da hipocrisia cristã na maneira como o outro é enxergado.

Pense nas pessoas historicamente mais marginalizadas, desmoralizadas e indesejáveis pela sociedade: prostitutas, travestis, pessoas em situação de rua, dependentes químicos, pessoas doentes e tantas outras que ocupam os extremos da exclusão social. Depois, pense nas camadas intermediárias, nas pessoas e famílias que vivem os efeitos sociais, econômicos e políticos dessa realidade.

Agora observe uma contradição.

Muitas das chamadas “pessoas de bem”, cristãs, paroquiais, mobilizadoras de campanhas de caridade, arrecadações e ações assistenciais — frequentemente pertencentes a uma classe média protegida por algum nível de conforto — dificilmente se percebem como iguais, irmãos ou semelhantes àquele que ajudam.

Não se enxergam no gay. Não se enxergam no mendigo. Não se enxergam no macumbeiro. Não se enxergam na travesti. Não se enxergam no dependente químico.

O acolhimento, nesses casos, muitas vezes não nasce do reconhecimento da igualdade, mas da distância.

A caridade pode se transformar em desencargo de consciência. Pode servir para tirar uma fotografia, publicar uma ação, mostrar aos filhos um exemplo de “como não ser” ou ensinar, ainda que silenciosamente, “o que não devemos nos tornar”.

É uma compaixão que conforta porque confirma uma posição de superioridade: eu ajudo porque você precisa de ajuda; e você precisa de ajuda porque, felizmente, eu não sou como você.

Essa talvez seja uma das formas mais sutis de violência moral: oferecer compaixão sem oferecer igualdade.

E existe hoje um movimento cada vez mais forte de doutrinação comportamental que reforça essa postura de supremacia moral e cultural cristã. Um movimento que alcança especialmente setores jovens e conservadores — uma espécie de paradoxo histórico: jovens reproduzindo estruturas morais extremamente tradicionais enquanto acreditam estar apenas defendendo “valores”.

Na linha mais direta desse supremacismo neopentecostal, encontram-se as religiões de matriz africana e seus praticantes. Umbandistas, candomblecistas, praticantes de diferentes tradições de axé e tantas outras manifestações religiosas são frequentemente colocados no mesmo lugar simbólico do “outro” que precisa ser combatido, convertido ou eliminado do espaço público.

E o problema se torna ainda mais grave quando essa visão de mundo começa a ocupar espaços de poder.

Vereadores, deputados, agentes de segurança pública, setores do Judiciário, empresários, influenciadores e fenômenos da internet passam a reproduzir, em diferentes graus, discursos fortemente atravessados pelo fundamentalismo religioso. E, nesse ambiente, pessoas LGBTQIA+ e praticantes de religiões de matriz africana frequentemente se tornam alvos privilegiados.

A questão, portanto, é muito maior do que parece.

Não se trata apenas da intolerância de indivíduos específicos. Trata-se da construção progressiva de um terreno cultural, no qual determinadas crenças passam a ser apresentadas como moralmente superiores, enquanto outras identidades, religiões e formas de existência são empurradas para o lugar do desvio, do pecado, da ameaça ou daquilo que precisa ser corrigido.

O perigo está justamente aí.

Quando uma sociedade aceita que um grupo possa se considerar moralmente superior aos demais, abre-se espaço para que qualquer símbolo, bandeira ou projeto político venha, amanhã, explorar essa sensação de superioridade.

Hoje pode ser contra a macumba.

Pode ser contra pessoas LGBTQIA+.

Amanhã, pode ser contra qualquer pessoa que não se encaixe no modelo considerado aceitável.

Por isso, talvez seja necessário questionar não apenas a intolerância explícita, mas também aquela que se apresenta com um sorriso, uma oração, uma cesta básica, uma campanha de caridade ou um discurso de amor ao próximo — mas que, no fundo, continua dizendo:

“Eu sou melhor do que você.”

terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Justiça não pode ser cega num país de gente racista

A justiça cega não enxerga o racismo, não enxerga a desigualdade. A Justiça que é cega não enxerga a textura da pela, nem o calo na mão. 

Justiça tem que enxergar. Tem que olhar a quem, o por quê e pra que. 

Mais vale um Machado de dois cortes na mão de quem enxerga e vê, do que uma balança vazia nas mãos de quem não enxerga e não olha aquele a quem cabe a sentença.  

Kaô.

Educação antirracista

Muito se fala em educação antirracista. Muito mesmo. Virou até capital de currículo, marketing digital pra empresários e polítiqueiros da ed...