De Ori pra Ori.
Compartilhando saberes, por Alan Geraldo. Professor de História, Candomblecista e escrivinhador.
domingo, 12 de janeiro de 2025
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O fascismo é assim
sábado, 11 de janeiro de 2025
Supremacismo cristão neopentecostal
Eu penso, comigo mesmo, que tenho certa obrigação moral de compartilhar algumas questões que podem passar despercebidas, mas que ajudam a fundamentar preconceitos, intolerâncias e as diversas formas de violência que delas derivam.
Refiro-me, mais uma vez, àquilo que chamo de ética cristã da superioridade moral: essa percepção, muitas vezes naturalizada, de que pessoas cristãs são eleitas, escolhidas, especiais — moralmente superiores ou mais próximas de uma suposta verdade.
Quero propor que observemos uma camada mais profunda da hipocrisia cristã na maneira como o outro é enxergado.
Pense nas pessoas historicamente mais marginalizadas, desmoralizadas e indesejáveis pela sociedade: prostitutas, travestis, pessoas em situação de rua, dependentes químicos, pessoas doentes e tantas outras que ocupam os extremos da exclusão social. Depois, pense nas camadas intermediárias, nas pessoas e famílias que vivem os efeitos sociais, econômicos e políticos dessa realidade.
Agora observe uma contradição.
Muitas das chamadas “pessoas de bem”, cristãs, paroquiais, mobilizadoras de campanhas de caridade, arrecadações e ações assistenciais — frequentemente pertencentes a uma classe média protegida por algum nível de conforto — dificilmente se percebem como iguais, irmãos ou semelhantes àquele que ajudam.
Não se enxergam no gay. Não se enxergam no mendigo. Não se enxergam no macumbeiro. Não se enxergam na travesti. Não se enxergam no dependente químico.
O acolhimento, nesses casos, muitas vezes não nasce do reconhecimento da igualdade, mas da distância.
A caridade pode se transformar em desencargo de consciência. Pode servir para tirar uma fotografia, publicar uma ação, mostrar aos filhos um exemplo de “como não ser” ou ensinar, ainda que silenciosamente, “o que não devemos nos tornar”.
É uma compaixão que conforta porque confirma uma posição de superioridade: eu ajudo porque você precisa de ajuda; e você precisa de ajuda porque, felizmente, eu não sou como você.
Essa talvez seja uma das formas mais sutis de violência moral: oferecer compaixão sem oferecer igualdade.
E existe hoje um movimento cada vez mais forte de doutrinação comportamental que reforça essa postura de supremacia moral e cultural cristã. Um movimento que alcança especialmente setores jovens e conservadores — uma espécie de paradoxo histórico: jovens reproduzindo estruturas morais extremamente tradicionais enquanto acreditam estar apenas defendendo “valores”.
Na linha mais direta desse supremacismo neopentecostal, encontram-se as religiões de matriz africana e seus praticantes. Umbandistas, candomblecistas, praticantes de diferentes tradições de axé e tantas outras manifestações religiosas são frequentemente colocados no mesmo lugar simbólico do “outro” que precisa ser combatido, convertido ou eliminado do espaço público.
E o problema se torna ainda mais grave quando essa visão de mundo começa a ocupar espaços de poder.
Vereadores, deputados, agentes de segurança pública, setores do Judiciário, empresários, influenciadores e fenômenos da internet passam a reproduzir, em diferentes graus, discursos fortemente atravessados pelo fundamentalismo religioso. E, nesse ambiente, pessoas LGBTQIA+ e praticantes de religiões de matriz africana frequentemente se tornam alvos privilegiados.
A questão, portanto, é muito maior do que parece.
Não se trata apenas da intolerância de indivíduos específicos. Trata-se da construção progressiva de um terreno cultural, no qual determinadas crenças passam a ser apresentadas como moralmente superiores, enquanto outras identidades, religiões e formas de existência são empurradas para o lugar do desvio, do pecado, da ameaça ou daquilo que precisa ser corrigido.
O perigo está justamente aí.
Quando uma sociedade aceita que um grupo possa se considerar moralmente superior aos demais, abre-se espaço para que qualquer símbolo, bandeira ou projeto político venha, amanhã, explorar essa sensação de superioridade.
Hoje pode ser contra a macumba.
Pode ser contra pessoas LGBTQIA+.
Amanhã, pode ser contra qualquer pessoa que não se encaixe no modelo considerado aceitável.
Por isso, talvez seja necessário questionar não apenas a intolerância explícita, mas também aquela que se apresenta com um sorriso, uma oração, uma cesta básica, uma campanha de caridade ou um discurso de amor ao próximo — mas que, no fundo, continua dizendo:
“Eu sou melhor do que você.”
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